
QUAL É O MELHOR?
Todo mundo que tem cachorro passeia — ou, pelo menos, deveria passear — pelo menos uma vez ao dia com o seu cachorro na rua.
Os cães têm uma necessidade natural de caminhar. Na natureza, os cães andam quilômetros e quilômetros todos os dias. Além de ser uma atividade física muito importante para o cachorro, o passeio também é um excelente gasto de energia mental.
Isso acontece porque o cachorro usa o olfato para investigar o ambiente, farejar cheiros, identificar outros animais e captar diversos odores que nós, humanos, não conseguimos perceber. Por isso, o passeio não é só “levar o cachorro para fazer xixi”. O passeio é uma necessidade física, mental e comportamental do cão.
Mas, afinal, qual é o melhor equipamento para passear com o seu cachorro?
Se o seu cachorro puxa na guia e você usa peitoral para passear com ele, eu já te adianto: talvez você esteja usando o equipamento errado para o seu objetivo.
Neste artigo, vou falar sobre os principais equipamentos para passear com cachorro, explicar os prós e contras de cada um e te ajudar a entender qual equipamento pode ser mais adequado para o seu cão.
Vamos começar pela peitoral, que é um dos equipamentos mais populares entre os tutores.
A peitoral é, sem dúvida, um dos equipamentos mais vendidos para passear com cachorro. Muitas pessoas compram peitoral porque ela parece uma roupinha. Outras pessoas compram peitoral porque têm medo de usar outros equipamentos, como colar, guia unificada ou colar de grampos.
Peitoral para cachorro: é o melhor equipamento para passeio?
Mas será que a peitoral é realmente o melhor equipamento para passear com o seu cachorro?
Na minha opinião, depende do objetivo.

A peitoral não foi desenvolvida apenas para passeios comuns. Em muitos casos, ela foi criada para ensinar o cachorro a tracionar, ou seja, para puxar para frente com força.
Um exemplo são os cães de guarda que atuam na segurança pública. Esses cães podem usar uma peitoral onde o adestrador trabalha para que o animal queira tracionar e ir para cima de um agressor sob comando.
Outro exemplo são os cães de trenó, como os huskies siberianos. Esses cães eram usados antigamente para transportar carga por meio de trenós na neve. Para isso, eles precisavam de um equipamento que permitisse aplicar força para frente sem se machucar.
Por isso, quando falamos de cachorro que puxa na guia, a peitoral pode não ser a melhor escolha. Se o cachorro já tem o hábito de puxar, a peitoral pode acabar reforçando esse comportamento.
Estudos mostram que o uso de peitoral altera a marcha e o movimento dos membros anteriores do cachorro, inclusive a extensão do ombro durante a caminhada e o trote.pmc.ncbi.nlm.nih+1
Uma pesquisa que avaliou 66 cães encontrou mudanças no comprimento do passo, na distribuição de peso para os membros dianteiros e nos ângulos do ombro e do cotovelo quando os animais usavam peitoral durante caminhadas com guia frouxa.tandfonline
Isso não significa que toda peitoral vai causar um problema imediato no seu cachorro. Mas mostra que a peitoral precisa ser bem escolhida, bem ajustada e usada de acordo com a necessidade de cada animal.
Antes de comprar uma peitoral para cachorro, é importante considerar a idade do cão, o porte, a conformação da raça, possíveis predisposições a lesões, alterações musculoesqueléticas e a função do equipamento.tandfonline
Peitoral antipuxão: funciona para cachorro que puxa muito?
Mas e a peitoral antipuxão?
A peitoral antipuxão é muito procurada por tutores que têm cachorro puxando muito na guia. A ideia desse equipamento é reduzir a tração do cachorro durante o passeio.
Porém, a peitoral antipuxão também tem pontos negativos.
Alguns modelos apertam ou fazem pressão em regiões sensíveis do corpo do cachorro, principalmente no peito, no esterno e na região da caixa torácica. Para cães braquicefálicos — aqueles cães de focinho curto, como buldogue, pug, shih tzu e outros — isso pode ser ainda mais desconfortável.
Pesquisas sobre peitorais mostram que diferentes modelos podem gerar pressão em áreas como esterno, peito, ombros e costas. Em alguns equipamentos avaliados, as maiores forças e pressões foram encontradas na região do esterno.pmc.ncbi.nlm.nih
Outro ponto importante é a resistência do equipamento.
Hoje em dia, está cheio de vídeo na internet de peitorais estourando durante os passeios. Isso acontece, muitas vezes, porque o tutor compra uma peitoral de baixa qualidade ou porque o cachorro puxa com tanta força que o equipamento não aguenta.
Por isso, se você vai usar peitoral antipuxão, escolha um modelo resistente, bem ajustado ao corpo do cachorro e produzido por uma loja especializada em equipamentos de adestramento.
Guia de mosquetão com mola: por que o cachorro aprende a puxar?
O próximo equipamento é a guia de mosquetão com mola.
Essa é mais uma campeã de estourar durante os passeios. Muitos tutores compram guia com mola porque acham que ela amortece o impacto e protege o pescoço do cachorro.
De certa forma, a guia com mola até amortece parte da pressão no pescoço do cachorro. Porém, ela também pode incentivar o cachorro a tracionar.
Por quê?
Porque o cão entende que, quando ele puxa para frente, o passeio avança. Então ele aprende que puxar o dono faz a caminhada continuar.
Com o tempo, o cachorro entende a seguinte lógica: “quando eu puxo, eu consigo ir para onde eu quero”.
Ou seja, o dono que passeia com o cachorro — e não o cachorro que passeia com o seu dono.
Além disso, guias longas ou guias retráteis podem aumentar o risco de acidentes para o tutor e para o cachorro. Um estudo americano que analisou quase 423 mil atendimentos em prontos-socorros entre 2001 e 2020 encontrou um aumento de mais de quatro vezes nas lesões relacionadas a passeios com cachorro. Entre as lesões mais comuns estão fraturas de dedos, entorses de ombro e traumatismos cranianos.
Por isso, para um passeio mais seguro, eu recomendo uma guia curta, resistente e adequada ao tamanho e à força do seu cachorro.
Guia cabresto: é uma boa opção para cachorro calmo?
O próximo equipamento é a guia cabresto.
Na minha opinião, a guia cabresto pode ser um equipamento legal para passear quando o cachorro é calmo, equilibrado, já passou por adestramento e tem foco e obediência básica no dono.
O cabresto pode ajudar no direcionamento de cães que já entendem comandos básicos e que têm uma boa relação com o tutor. Mas ele não é uma solução mágica para todo cachorro que puxa na guia.
O cachorro precisa passar por uma habituação antes de usar cabresto. Ele precisa aprender a aceitar o equipamento e a ser direcionado por ele.
O cabresto age no focinho e na cabeça, que são regiões sensíveis do cachorro. Pesquisas observaram que alguns cães apresentam sinais de estresse e tentativas de retirar o equipamento, como esfregar o focinho no chão, passar a pata no focinho, lamber e bocejar.dogstodaymagazine.co+1
Por isso, se você for usar cabresto, faça uma introdução gradual, positiva e sempre com acompanhamento de um adestrador qualificado.
Nunca dê trancos na guia quando o cachorro estiver usando cabresto, pois isso pode causar lesões no pescoço.vcahospitals
Guia unificada e colar de elos: como usar sem machucar o cachorro?
Agora vamos falar da guia unificada e do famoso “enforcador”.
Na minha opinião, esses podem ser bons equipamentos para conduzir o cachorro, desde que sejam usados com conhecimento, técnica e responsabilidade.
É um fato que o pescoço do cachorro tem sensibilidade na região atrás das orelhas e atrás da mandíbula. Porém, na natureza, os cães se comunicam de muitas maneiras através dessa região.
Uma mãe, por exemplo, quando vai transportar um filhote, segura o filhote pelo pescoço. E, quando os cães brigam, eles também mordem um ao outro no pescoço.
O conceito de usar uma guia unificada ou um colar de elos — famoso pelo nome popular de “enforcador” — é poder direcionar o cachorro e, quando necessário, fazer uma advertência.
Mas é primordial conhecer o equipamento, adaptar o cachorro a utilizá-lo e aprender a usá-lo da forma correta.
Se você pegar um cachorro que está acostumado a puxar no passeio usando peitoral e apenas trocar a peitoral pelo enforcador, esse cachorro provavelmente vai continuar puxando. E, nesse caso, ele pode acabar se enforcando.
Esqueça esse nome de “enforcador”.
O objetivo desse equipamento não é sufocar o cachorro. O objetivo é se comunicar por meio de leves toques ou pressões no pescoço, depois que o cachorro aprende a seguir o direcionamento da guia.
Você não precisa ficar dando trancos fortes no pescoço do seu cachorro. O uso incorreto de colares que apertam pode causar desconforto, estresse e lesões.vcahospitals
Colar de grampos: o equipamento que mais assusta os tutores

Por último, temos o equipamento que mais assusta as pessoas: o colar de grampos, conhecido pelo nome polêmico de “colar de espinhos”.
Esse equipamento pode ser usado no passeio, mas precisa ser utilizado com muito cuidado, conhecimento e técnica. Tanto o colar de grampos quanto o colar de elos e a guia unificada podem acabar sendo usados de forma prejudicial à integridade do cachorro.
Por isso, é primordial que as pessoas busquem conhecimento ou auxílio profissional de quem trabalha com adestramento.
O colar de grampos pode simular, em tese, os dentes da mãe durante a guarda e proteção. Ele é utilizado para advertir o cachorro quando ele está em um estado emocional muito alto, vidrado no que chamamos de “drives”: instinto de caça, luta, defesa e agressão.
Quando o cachorro está vidrado nesses drives, ele costuma não escutar com clareza e, consequentemente, não vai obedecer apenas por um comando verbal.
Nesse contexto, o colar de grampos pode ser usado para auxiliar no autocontrole do cachorro. Após uma correção bem feita, o cachorro se compromete e passa a prestar atenção também no dono.
Existem vários formatos desse equipamento. Aquele colar de grampos que tem dois anéis, por exemplo, funciona de formas diferentes conforme a guia é posicionada:
- Se a guia de mosquetão for atrelada em apenas um anel, a pressão pode causar um desconforto maior, servindo como uma correção — desde que seja usada com técnica e adequação.
- Se a guia for atrelada aos dois anéis, a pressão pode acabar servindo como motivador para o cachorro puxar, pois ela pode atiçar o cachorro.
É importante deixar claro: o colar de grampos é considerado um equipamento aversivo. Estudos e revisões sobre métodos de adestramento associam o uso de ferramentas aversivas a sinais de estresse, medo, ansiedade e possíveis problemas de comportamento, especialmente quando são usadas sem técnica adequada.
Por isso, não recomendo que ninguém compre ou utilize colar de grampos por conta própria, sem orientação de um profissional de adestramento.
Onde comprar equipamentos de adestramento para cachorro?
Para finalizar, eu te aconselho a não comprar equipamentos para passear com cachorro em casas de ração.
Busque equipamentos em lojas especializadas na produção de equipamentos de adestramento. Assim, você terá mais chance de comprar equipamentos com maior qualidade, maior durabilidade e mais segurança para o seu cachorro.
Além disso, escolher o equipamento certo ajuda a evitar que você ensine maus comportamentos ao seu cão, como puxar na guia, se distrair facilmente ou não respeitar o direcionamento do dono.
Espero que tenha feito sentido para você até aqui.
Se você tem interesse em educar o seu cachorro por conta própria, assista ao vídeo do YouTube abaixo, onde eu mostro o primeiro exercício que ensino para o cachorro se concentrar e gostar de interagir com o dono.