Abandono de cães e o mercado bilionário:

Abandono de cães e o mercado bilionário:

Por que o adestramento deveria ser prioridade — não luxo

O Brasil tem cerca de 166,8 milhões de animais de estimação e um mercado pet projetado para movimentar aproximadamente R$ 81 bilhões em 2026. Ao mesmo tempo, o país ainda enfrenta um problema antigo e doloroso: cães abandonados, devolvidos ou entregues porque as famílias não sabem como lidar com o comportamento deles.veja.abril.com+1

Essa contradição revela algo importante: gastamos muito com cães, mas ainda investimos pouco em aprender a nos comunicar com eles.

O problema não é só “ter um cachorro”

Muitas pessoas querem adotar, mas desistem quando o cão late demais, destrói móveis, puxa a coleira, não aceita visitas, demonstra medo ou reage mal a outros animais. Em muitos casos, o problema não é o cão ser “difícil”: é a falta de preparo do tutor para compreender o que aquele comportamento significa.

O cão não nasce sabendo viver em uma casa humana. Ele precisa aprender:

  • Onde pode fazer as necessidades.
  • Como caminhar na coleira.
  • Como se comportar com visitas.
  • O que fazer quando fica sozinho.
  • Como lidar com frustração.
  • Como interagir com outros cães e pessoas.
  • Quais limites existem dentro de casa.

Seu cachorro não é mau educado, ele só é o espelho do seu comportamento. O cão tem suas próprias necessidades e quando nós não compreendemos quais são elas o cachorro passa a buscar supri-las por conta própria, manifestando comportamentos que nos incomodam, por exemplo: um filhote de 4 a 6 meses de idade que roí tudo o que vê pela frente para coçar a gengiva que está irritada graças ao nascimento dos dentes fixos e a queda dos dentinhos de leite, e as reações no comportamento dos tutores acabam piorando o comportamento do cão, e isso se torna um ciclo vicioso que só se resolve quando os proprietários do cão buscam conhecimento fazendo um curso, comprando um livro ou contratando um adestrador profissional.

Adestramento é comunicação, não dominação

Adestrar não é obrigar o cão a obedecer por medo. É criar uma linguagem clara com o cão, estabelecendo regras e restrições, e ensinar o cacho a gostar de obedecer, assim quando o tutor precisar solicitar a obediência o cão irá responder em pronta resposta, sem precisar de suborno com petiscos ou brinquedo. Isso é possível seguindo uma metodologia validada e com base sólida na ciência.

Na prática, isso significa ensinar comportamentos úteis no seu dia a dia, por exemplo:

  • Como ensinar comando de obediência (sentar, deitar, ficar e vir quando chamado).
  • Caminhar sem puxar a coleira.
  • Voltar quando chamado.
  • Ficar calmo diante de visitas.
  • Aceitar manipulação e cuidados.
  • Lidar melhor com a solidão.
  • Fazer escolhas seguras em situações do dia a dia.

Um cão que entende limites e rotinas se sente mais seguro. Um tutor que sabe comunicar-se com o animal toma decisões mais conscientes e evita punições desnecessárias.

Comportamento natural também precisa de espaço

Antes de chamar um comportamento de “problema”, é preciso perguntar: isso é natural no cão?

Farejar, explorar, mastigar, brincar, latir, cavar, correr e interagir fazem parte do repertório canino. O problema surge quando esses comportamentos não encontram um canal adequado.

Por exemplo:

  • Um cão que destrói sapatos pode estar precisando de mastigação segura.
  • Um cão que late muito pode estar entediado, alerta ou frustrado.
  • Um cão que puxa a coleira pode estar aprendendo que avançar funciona.
  • Um cão que reage a outros cães pode estar com medo, sem experiência social ou sem distância segura.

O adestramento não apaga a natureza do cão. Ele redireciona essa natureza para alternativas aceitáveis e seguras.

O que muda se o adestramento fosse prioridade?

Se adestramento e educação de tutores fossem tratados como parte essencial da posse responsável, vários problemas sociais poderiam diminuir.

Menos abandono por falta de preparo

Muitos casos de entrega ou devolução acontecem porque o tutor não sabe lidar com o comportamento do cão. Quando a família entende reforço positivo, rotina, limites e manejo ambiental, a convivência se torna mais viável.

Pergunta para refletir:
Quantos cães poderiam continuar em seus lares se os tutores tivessem recebido orientação antes de desistir?

Menos acidentes com cães de grande porte

Cães grandes exigem mais responsabilidade, não porque sejam naturalmente perigosos, mas porque têm força física, energia e necessidades específicas. Um cão de grande porte sem controle na coleira, sem recall confiável e sem manejo adequado pode gerar situações de risco.

O adestramento não garante que um cão nunca terá uma reação inesperada. Mas ele reduz riscos ao ensinar:

  • Caminhada com guia frouxa.
  • Atenção ao tutor.
  • Espera em portas e portões.
  • Controle de impulsos.
  • Comportamento alternativo diante de gatilhos.
  • Manejo seguro em ambientes públicos.

Pergunta para refletir:
Um cão de grande porte precisa apenas de espaço — ou também de preparo, limites e comunicação clara?

Mais doações bem-sucedidas

Muitas pessoas querem doar um cão, mas encontram dificuldade porque os interessados não sabem lidar com comportamentos como medo, ansiedade, energia alta ou falta de limites.

Se o adestramento fizesse parte do processo de adoção, o cão chegaria ao novo lar com mais chances de sucesso. E o adotante chegaria preparado para entender que os primeiros meses são de adaptação, aprendizagem e construção de vínculo.

Pergunta para refletir:
Adotar é um ato de amor — mas será que amor sem conhecimento é suficiente?

Uma hierarquia mais saudável em casa

A palavra “hierarquia” costuma ser mal interpretada. Não se trata de dominar o cão, humilhá-lo ou vencer uma disputa de poder. Trata-se de organizar a rotina e definir, com clareza, quem orienta as decisões importantes.

Uma estrutura saudável inclui:

  • Horários previsíveis para alimentação, passeio e descanso.
  • Regras consistentes para todos da casa.
  • Reforço dos comportamentos desejados.
  • Limites claros em portas, sofás, mesas e brincadeiras.
  • Consequências proporcionais e não violentas.
  • Tempo de qualidade, brincadeira e vínculo.

Quando a casa tem previsibilidade, o cão aprende o que esperar. Isso diminui ansiedade, conflitos e comportamentos confusos.

O mercado cresce, mas a consciência precisa crescer junto

O mercado pet brasileiro faturou R$ 77,96 bilhões em 2025 e deve chegar a cerca de R$ 81 bilhões em 2026, com alta projetada de 4,35%. O país também ocupa a terceira posição entre os países com maior população pet do mundo.cnnbrasil.com+2

Isso mostra que há dinheiro, demanda e interesse por cães. Mas crescimento econômico não significa, automaticamente, mais bem-estar animal.

Podemos comprar ração premium, roupinhas, brinquedos, caminhas e acessórios. Porém, se o tutor não entende o comportamento do cão, o problema continua: o animal continua sem saber como se comportar, e a família continua sem saber como ensinar.

Pergunta para refletir:
Estamos construindo um mercado que vende mais produtos para cães — ou uma sociedade que sabe cuidar melhor deles?

O papel do poder público

A recente decisão do STF reforçou que prefeituras têm o dever de garantir acolhimento e proteção a cães e gatos abandonados ou vítimas de maus-tratos, podendo usar estruturas próprias ou alternativas que assegurem abrigo, atendimento veterinário e proteção.ncnews.com

Isso é importante. Mas políticas públicas não deveriam se limitar a recolher animais depois que o problema já aconteceu.

Uma política mais completa poderia incluir:

  • Campanhas permanentes de posse responsável.
  • Castração acessível.
  • Microchipagem e identificação.
  • Fiscalização contra abandono e maus-tratos.
  • Apoio a ONGs e protetores.
  • Educação sobre comportamento animal.
  • Incentivo ao adestramento ético antes e depois da adoção.

Pergunta para refletir:
Se o poder público precisa acolher animais abandonados, por que a prevenção — incluindo educação de tutores — ainda recebe tão pouca atenção?

O que o behaviorismo nos ensina

O behaviorismo nos ajuda a enxergar o comportamento como aprendizagem. Em vez de dizer “meu cachorro é teimoso”, podemos perguntar:

  • O que acontece antes desse comportamento?
  • O que o cão ganha ao repeti-lo?
  • O que ele está tentando conseguir ou evitar?
  • Que alternativa mais adequada posso ensinar?

Um cão que pula nas visitas pode ter aprendido que pular gera atenção. Um cão que late na janela pode ter aprendido que latir afasta pessoas ou movimentos. Um cão que destrói objetos pode estar aliviando tédio, energia acumulada ou ansiedade.

Quando mudamos o ambiente e ensinamos uma alternativa, mudamos o resultado.

Adestramento não é despesa: é prevenção

Muitas famílias veem o adestramento como um custo extra. Mas, na prática, ele pode prevenir:

  • Devoluções e abandonos.
  • Acidentes com crianças, idosos e visitantes.
  • Conflitos com outros cães.
  • Multas e problemas com vizinhos.
  • Destruição de objetos.
  • Estresse crônico do animal.
  • Decisões impulsivas de entrega ou eutanásia.

Investir em comportamento é investir em convivência, segurança e qualidade de vida.

Reflexão final

O Brasil tem um mercado pet enorme, milhões de famílias apaixonadas por cães e um número crescente de animais em situação de vulnerabilidade. Entre esses dois mundos existe uma lacuna: a falta de comunicação clara entre humanos e cães. O adestramento ético pode preencher essa lacuna.

Não como moda, não como luxo e não como solução mágica — mas como uma ferramenta de prevenção, vínculo e responsabilidade.

Talvez a pergunta não seja “por que meu cachorro se comporta assim?”, mas sim: “o que eu ainda não aprendi a comunicar a ele?”

Se você quer adotar, já adotou ou está pensando em entregar um cão, procure orientação comportamental antes de tomar uma decisão definitiva. Muitos problemas que parecem impossíveis começam a mudar quando o tutor aprende a enxergar o comportamento do cão com clareza, paciência e método.